Lose/Lose: Suas ações tem consequências

Lose/Lose (Perde/Perde) é uma tentativa impressionante de fazer um jogo onde matar um inimigo gera consequências reais para o jogador. Parece um clone de Space Invaders, onde você controla uma nave e pode atirar nas naves alienígenas que vem em sua direção. A diferença é que cada inimigo é um arquivo do seu computador. Não apenas cada nave inimiga representa um arquivo existente no seu computador, mas cada nave é gerada a partir de um arquivo selecionado aleatoriamente do seu computador. Quando uma nave inimiga é destruída, o arquivo ligado a ela é apagado permanentemente do seu HD. Se sua nave é destruída, o jogo é apagado do seu computador. Isso quer dizer que cada inimigo é único, só pode ser destruído uma única vez. Veja o vídeo para ter uma idéia. [Para ver o vídeo ampliado, clique em Dim Lights]

Desenvolvedor: Zach Gage
Plataformas: Windows
Data de lançamento: 2009
Gênero: Game art
Duração: Variável

Página do jogo (ATENÇÃO: não jogue este jogo antes de ler a resenha abaixo, ele pode fazer você perder dados.)
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Qual o objetivo? O autor do jogo deixa bem claro a questão que ele queria levantar: "Por que nós assumimos que só porque nos deram uma arma e somos recompensados por usá-la, que fazê-lo é correto?". O jogo propositalmente não especifica qual é o objetivo do jogador. Embora você perca ao tocar numa nave alienígena, e receba pontos por destruí-las, as naves alienígenas nunca atiram contra o jogador, e nada impede que você jogue sem destruir nenhuma nave, apenas desviando delas. É a maneira como nós somos condicionados pela mecânica dos jogos que nos faz tomar a postura de atirar contra o que se move, ou é a própria lógica da sociedade moderna que nos treina para isso?

Um amigo e eu discutimos recentemente sobre isso. Os jogos eletrônicos e a vida moderna tem uma relação muito próxima, um imita o outro. Ele me lembrou que em ambos existe um esforço para anular as noções de seriedade e responsabilidade. Jogos são considerados válidos enquanto diversão sem consequências, mas na medida em que são tratados com seriedade e se começa a falar de ética, então as pessoas perdem o interesse.

Outra questão que o jogo levanta é o efeito de perder dados como se isso fosse uma consequência real. O autor diz: "Enquanto a tecnologia cresce, nosso entendimento dela diminui. Porém, ao mesmo tempo, ela se torna cada vez mais importante em nossas vidas. Em que momento nossos dados virtuais se tornaram tão importantes para nós quanto as posses físicas?"

Mais do que isso, como foi que chegamos ao ponto em que dados são mais valiosos que as pessoas? Um japonês recentemente se casou com uma personagem de vídeo-game. "Estou com ela e não preciso de uma namorada humana.", disse ele. Isto se deve ao fato de não conseguirmos expressar nossos sentimentos no mundo real? Ou é a realidade que exige de nós coisas que estamos aprendendo a não mais tolerar? Este fato, além de tudo, aponta para a banalização do casamento e da relação conjugal.

Se os dados contidos nos computadores valem tanto, o autor de Lose/Lose ainda pergunta: "Que implicações tem confiar algo tão importante a algo que entendemos tão pouco?". Aparentemente, é a nossa própria relação com a tecnologia que tende a se tornar um jogo do tipo Lose/Lose, que na teoria dos jogos é aquele onde não é possível vencer. Ou, voltando a um conceito presente em Execution, um jogo onde o vencedor é aquele que se recusa a jogar. Isso toma uma nova dimensão em Lose/Lose, já que o jogador pode perder coisas que ele considera valiosas.
A última questão que eu gostaria de tratar é se devemos considerar esse tipo de jogo como uma "excentricidade", algo "artístico" apenas no sentido de que só pode ser entendido por uma elite intelectualizada, de gosto refinado. Ou então, como uma perda de tempo, um "não-jogo" pretensiosamente inteligente, mas que simplesmente falha em ser divertido. Essas opiniões parecem estar mergulhadas em preconceitos. A própria noção contemporânea de jogo eletrônico está sendo colocada em xeque.
Minha opinião é que o jogo deve ser visto como portador de uma tese, e que essa tese pode ser avaliada, pode nos ajudar a refletir sobre o mundo, ou pode fazer o oposto. Como tal, deve ser tratado como se trata outros meios desse tipo: devem ser lidos e também escritos com muito cuidado.

Janos Biro é bacharel em filosofia, pós-graduando em teologia e desenvolvedor independente de jogos.
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